Todo mundo pensa em Xangai quando fala em China: arranha-céus, luzes, futuro. E é lindo, a gente amou. Mas foi quando saímos da cidade grande que a China nos pegou de verdade — no meio de uma montanha sagrada cheia de névoa, com um macaco tentando roubar o lanche do meu filho.
Se você vai levar a família à China, fica a dica: guarde alguns dias pra ver o país longe dos arranha-céus. Foi ali, em Sichuan, que tivemos os dias mais inesquecíveis — com pandas de verdade e uma das montanhas mais impressionantes que já subimos.
Chengdu: a base dos pandas (e o sonho das crianças)
Chengdu, capital da província de Sichuan, é a porta de entrada. E o motivo número um pra ir com criança tem nome: panda.
A Base de Pesquisa de Pandas de Chengdu é um santuário onde dá pra ver dezenas deles de pertinho — filhotes rolando, adultos mastigando bambu com aquela preguiça deliciosa. Pra criança (e pro adulto, seja honesto) é de arrancar suspiro. Meus três ficaram hipnotizados.
Dica de quem viveu: vá cedo, logo na abertura. Panda é mais ativo de manhã, no friozinho — depois do calor eles só dormem. Chegar na abertura é a diferença entre ver panda brincando e ver panda tirando soneca.

Monte Emei: a montanha sagrada dos macacos
De Chengdu, você chega ao Monte Emei (Emeishan) — uma das quatro montanhas sagradas do budismo na China. Névoa, templos escondidos, escadarias que somem no alto e um silêncio que a criançada até respeitou.
Mas o que virou história de família foram os macacos. Emeishan é famosa pelas suas tropas de macacos atrevidos — e atrevidos é apelido. Um deles avançou pra cima do lanche do meu filho sem cerimônia nenhuma. Susto, risada e uma baita lição sobre respeitar os bichos no território deles.
Dica prática: não ande com comida na mão nem em sacola aberta perto dos macacos. Guarde tudo na mochila fechada. Eles são espertos e rápidos — e a criança acha o máximo, desde que ninguém saia mordido.
Lá em cima fica o Cume Dourado (Golden Summit), muitas vezes acima das nuvens. Subir com criança exige planejamento — tem teleférico e ônibus da montanha que encurtam o esforço. Não precisa fazer tudo a pé; escolha os trechos e respeite o ritmo dos pequenos.
O Buda Gigante de Leshan
Pertinho de Emei está um dos lugares que mais impressionaram meus filhos: o Buda Gigante de Leshan, esculpido na rocha há mais de mil anos. É tão grande que uma pessoa cabe em cima de um dedão do pé dele. A criança olha aquilo e não acredita que foi feito à mão, sem máquina nenhuma.
Dá pra ver de barco (a vista completa, sem fila) ou descendo a escadaria esculpida na pedra ao lado dele. Com crianças pequenas ou muita gente, o barco é a opção mais tranquila.

A comida de Sichuan (prepare o paladar)
Sichuan é a terra da pimenta — a famosa comida apimentada e "amortecedora" (aquela pimenta que formiga a boca). Delicioso pro adulto aventureiro, mas pode assustar a criançada.
Na estrada: peça sempre o "não apimentado" (aprenda a falar bù là — sem pimenta) e tenha arroz branco como porto seguro. Sempre tem opção mais suave, e a experiência de comer diferente já é parte da viagem. Meus filhos toparam mais coisa do que eu esperava.
Vale a pena sair de Xangai?
Vale cada minuto. Xangai te mostra a China do futuro; Sichuan te mostra a China da alma — montanha sagrada, bicho selvagem, história milenar e comida que ninguém esquece. Juntas, elas contam a história completa de um país gigante.
Foi essa mistura — o choque entre o moderno e o ancestral — que a gente foi buscar quando largou tudo pra rodar o mundo um ano com os três filhos. Cada país nos ensinou algo, e essa jornada inteira virou o livro do meu marido, "5 Passaportes e Um Destino", pra quem sonha em viajar o mundo em família de verdade.
Meu conselho pra China com crianças: não fique só na cidade grande. Reserve Sichuan. Os pandas, os macacos de Emei e aquele Buda gigante vão morar na memória dos seus filhos pra sempre — e na sua também.
Compartilhamos roteiros, dicas e histórias reais de viagem em família. Autores do livro “5 Passaportes e Um Destino”.




