A primeira vez que botamos os três filhos num trem na Europa, eu confesso que estava com o coração na mão. E foi exatamente ali, vendo a paisagem trocar de país pela janela enquanto as crianças cochilavam, que a gente entendeu: era assim que queríamos viajar. Sem aeroporto, sem pressa, sem perder o melhor da viagem — o caminho.
Não é só a nossa sensação. Em 2026 a viagem de trem virou tendência de verdade: as reservas de trem para o ano subiram 41% em relação ao ano anterior. Famílias do mundo todo estão trocando voos curtos por trilhos — mais verde, mais tranquilo e, com criança, muito mais fácil do que parece.
Por que trem com criança é melhor que avião
Quem já encarou um check-in com mala, carrinho e três crianças sabe o estresse. No trem, tudo muda.
Você chega na estação dez minutos antes, não três horas. Não tem revista de segurança tirando sapato, não tem limite de líquido, não tem "põe o celular no modo avião". A criança levanta, anda, vai ao banheiro, olha a janela. E a janela, na Europa, é um espetáculo: Alpes, vinhedos, vilarejos, rios.
Dica de quem viveu: o trem transforma o deslocamento em passeio. Em vez de "perder" um dia indo de um lugar a outro, você ganha um dia de paisagem com a família junta.
Nosso trecho favorito: Alemanha, Áustria e norte da Itália
Se você está montando o primeiro roteiro, esse triângulo é imbatível para famílias. Foi um dos pedaços que mais marcou a gente.
Começamos por Munique, na Alemanha — cidade organizada, cheia de parque e com aquele clima de conto de fada perto dos castelos. De lá, o trem corta os Alpes austríacos até Salzburg e Innsbruck. A paisagem é tão bonita que as crianças largaram o tablet sozinhas (e isso, pai e mãe sabem, é raro).
Descendo pelo norte da Itália, você chega em lagos e cidades como Verona e Veneza. Cada parada é curta de trem, mas muda completamente de cenário, comida e idioma. Para criança, é como virar a página de um livro de aventura a cada dia.
Passe de trem ou bilhete avulso?
Essa é a dúvida número um, então vou direto.
Se você vai fazer vários trechos em poucos dias, o passe (tipo Eurail/Interrail) costuma compensar e dá liberdade — pega o trem que quiser, no dia que quiser. Crianças pequenas em geral viajam de graça ou com grande desconto junto dos pais, o que ajuda muito no orçamento de família grande como a nossa.
Se a sua viagem tem poucos trechos e datas fixas, às vezes o bilhete avulso comprado com antecedência sai mais barato. Vale fazer a conta dos dois jeitos antes de fechar.
Atenção: alguns trens rápidos pedem reserva de assento à parte, mesmo com passe. Reserve os trechos mais concorridos (e os de fim de tarde) com antecedência para a família sentar junto.
Como sobreviver (e curtir) longas horas com crianças
A logística é o que dá medo, mas se resolve com truque simples.
Leve bagagem leve — essa é a regra de ouro. No trem você mesmo sobe e desce as malas, então mochila e mala de rodinha pequena por pessoa facilitam a vida. Nada de mala gigante.
Monte um "kit trem" para cada criança: lanche, garrafinha, um caderno de desenho, fone e um joguinho. Comida a bordo é cara e nem sempre agrada — levar a própria salva o dia.
E reserve os assentos de mesinha (quatro lugares frente a frente). Vira sala de jantar, mesa de jogo e cama de soneca, tudo no mesmo lugar.
O que essa viagem ensina às crianças
Tem uma coisa que só o trem dá: a noção real de distância e de fronteira. Seu filho vê a placa mudar de idioma, percebe que "ali começa outro país", entende geografia com o corpo, não no mapa da escola.
Foi vivendo essas travessias que percebemos o quanto viajar devagar conecta a família. Sem a correria do avião, sobra conversa, sobra janela, sobra presença. Essa lição — de desacelerar para viver mais — é o coração do livro que escrevi sobre o ano em que largamos tudo para rodar o mundo com os três: "5 Passaportes e Um Destino".
Vale a pena em 2026?
Vale, e muito. Com o trem em alta, mais conexões, mais conforto e a possibilidade de cruzar a Europa sem o desgaste dos aeroportos, 2026 é um ótimo ano para a família entrar nos trilhos.
Meu conselho: comece com um trecho curto, de três a quatro países próximos, sinta o ritmo, e na próxima você já parte para roteiros maiores. O trem não é só transporte — é parte da viagem. E, com criança, talvez seja a melhor parte.
Compartilhamos roteiros, dicas e histórias reais de viagem em família. Autores do livro “5 Passaportes e Um Destino”.




